October 16, 2012

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Documentário ‘5X Pacificação’ mostra os diferentes ângulos do processo de implantação das UPPs no Rio

Documentário traz histórias quem vive o dia a dia das polícias pacificadoras nas favelas cariocas

Matéria publicada no portal Saraiva Conteúdo em 16.10.2012

Por Carolina Cunha

Parecia um filme de guerra. Em novembro de 2010, o telespectador pôde assistir nos telejornais à fuga em massa de traficantes armados, que seguiam por uma estrada de terra, acuados pelas forças de segurança que entraram no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

A cena cinematográfica é apenas uma das muitas facetas da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas cariocas. Com o patrulhamento diário, essas unidades buscam a retomada de territórios antes controlados por bandidos, que criaram um poder paralelo e agiam como verdadeiros donos dos morros.

Agora essa história chega às telonas. Promover uma reflexão sobre esse recente processo das UPPs e mostrar a realidade cotidiana de quem vive nas favelas é a proposta de 5X Pacificação, documentário produzido por Cacá Diegues e Renata Almeida, que será lançado no dia 16 de novembro.

Quem assina a direção do filme são quatro jovens diretores do 5X Favela – Agora por Nós Mesmos (2010), produção que também contou com o apoio de Diegues. O grupo faz parte de uma nova geração de cineastas revelada por projetos culturais nos morros cariocas.

“Quando as UPPs chegaram, vimos que realmente era um assunto super sério e uma proposta de inovação de segurança pública que estava acontecendo na nossa casa, onde a gente vive. Queríamos entender o assunto de todos os lados. Hoje, chegamos à conclusão de que todo mundo tem que falar deste filme. Queremos que as pessoas saiam do cinema discutindo o assunto”, diz Luciano Vidigal, 32 anos, um dos diretores.

A nova política de segurança pública do Rio é um projeto de larga escala que começou em 2008, em comunidades de baixa renda como Santa Marta, Mangueira, Batan, Borel, Babilônia e Cidade de Deus. De lá para cá, já foram criadas 28 UPPs, e novas bases devem entrar em funcionamento até 2016.

No documentário, cada um dos diretores conduz individualmente um episódio sobre esse universo; depois, eles dividem a direção no quinto. Cadu Barcellos dirigiu “Morro”, onde tenta entender o lado dos moradores locais, enquanto no episódio “Asfalto”, Wagner Novais entrevistou os moradores que vivem ao redor das favelas para mostrar o que eles pensam sobre a ocupação.

Luciano, que é morador do Morro do Vidigal, filmou o episódio “Bandidos”, com depoimentos de ex-traficantes, muitos deles apoiados pela ONG AfroReggae para a reinserção no mercado de trabalho.

O cineasta tem um irmão que conseguiu sair do tráfico e hoje está trabalhando. Por isso, acredita que a grande maioria ainda pode ter uma chance de resgate do crime. No documentário, ele acompanha um jovem que tenta o seu primeiro emprego formal e mostra algumas histórias de transformação, como a do ex-traficante que virou pastor e de outro que sonha em ser figurante de cinema.

“Percebi que a UPP conseguiu enfraquecer um pouco o tráfico de drogas e a luta armada. A maioria desses jovens realmente quer sair e trabalhar. Eu provo isso com meus personagens”, acredita Luciano.

Rodrigo Felha, 33 anos, buscou entender a visão do “lado de lá”, representado pelo Estado. Em “Polícia”, ele conhece como é feito o treinamento dos novos soldados e cabos que vão atuar nas UPPs e relata uma história pessoal, quando sofreu uma abordagem abusiva por policiais na Cidade de Deus, onde mora. Ao entrar no quartel, ele não consegue esconder o desconforto.

“A minha identificação sempre foi com aquilo com que eu convivi a vida inteira, a bandidada. E, por conta do que aconteceu comigo, recebi a proposta de assinar esse episódio do filme como um grande desafio”, conta.

No quinto episódio, “Complexo”, o grupo aborda a ocupação no Complexo do Alemão e na Rocinha. O capítulo estava fora do roteiro original, pois ambas as ocupações ocorreram durante as filmagens. Em cima da hora, decidiram incluir a história, dividindo a direção.

Um dos desafios dos diretores foi conseguir que as pessoas falassem. Muitos moradores das comunidades ainda estão desconfiados e, às vezes, o assunto UPP parece ser um tabu.

“Como foi difícil fazer as pessoas falarem! A gente conseguiu depoimentos milagrosos. Os moradores ainda têm muito medo do que pode acontecer. A grande maioria é a favor das UPPs, mas tem gente que é contra. Mostramos isso no filme”, diz Luciano.

5X Pacificação mostra que, embora ainda existam conflitos, há lados positivos. Desde a criação da UPP, um cinema foi construído no Complexo do Alemão, além de bancos, supermercados e novas rotas de turismo que têm atraído moradores do asfalto e ajudam a gerar renda nas favelas. Mas isso não é tudo.

Para os cineastas, as UPPs são um processo para a paz, e não a solução final para todos os problemas que as favelas enfrentam na inserção social com toda a cidade. “O policial não tem que ser dono do morro e, sim, os moradores. É preciso educação, saúde, esgoto”, diz o cineasta Wagner Novais.

Para o futuro, cada um dos quatro diretores já tem planos. Wagner acaba de finalizar o curta Mandinga, sobre crença e amizade; Rodrigo quer continuar a filmar e trabalhar com teatro infantil; e Cadu, atualmente coordena o núcleo de audiovisual do Observatório de Favelas.

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